O canto de María: Magnificat 

O Canto de Maria (Lc 1,46-56)
A profecia sempre fez parte da tradição israelita. O profeta é alguém que faz uma profunda experiência de Deus e, a partir dessa experiência, transmite com fidelidade a palavra que ouvirá do próprio Deus. É alguém que pronuncia a palavra que ouve antecipadamente como amigo, por isso pode e deve dizê-la. O profeta se apresenta como embaixador e mensageiro de Deus sobre a terra. 
Maria faz parte da escola dos profetas e profetisas por isso ela canta a ação libertadora de Deus para os pequenos. Assim, pode-se dizer que a profecia pronunciada por Maria brotou de sua experiência e de seu encontro com Deus. Encontro que é expresso no canto do Magnificat. Neste ensaio o intento é delinear algumas palavras acerca da citação de Maria como profetiza do Reino.
O Magnificat está essencialmente estruturado em duas partes: (1,46-50) e (1,51-55). A primeira parte é uma espécie de canto pessoal, recolhimento, agradecimento a Deus pelos dons que ele lhe concedeu. Neste trecho, Maria em tom de louvor, agradece a Deus ao descobrir e explicitar aquilo que seu amor lhe tem dado. Vejamos o texto:

Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta em Deus meu Salvador (1,46-47), 

Este vínculo define a identidade de Maria. Narra a essência de sua vida. Sua identidade aparece em dois termos fundamentais para a Antropologia Bíblica. Alma (Psique) e espírito (pneuma). Maria é alma, dimensão psicológica do seu sentimento, aberto à grandeza de Deus. Alma que deseja encontrar-se com Ele com único objetivo: cumprir a vontade de Deus. Ela também é espírito. O Espírito expressa a dimensão divina presente na pessoa humana. É a essência da vida convertida em alegria, em felicidade plena, pois sabe que Deus existe e salva os seres humanos.
O versículo proclama que Maria está totalmente entregue a Deus. Não existe barreira alguma, cessaram os medos. Deus a chamou para viver em liberdade e é justamente por ser livre que ela canta os dons que recebeu. Sua experiência de Deus é tão profunda que sua profecia começa com o hino à grandeza divina.
Porque olhou para a humilhação de sua serva. 
Sim! Doravante as gerações todas me chamarão de bem aventurada.

Pois o todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor.

Seu nome é santo

e a sua misericórdia perdura de geração em geração

 para aqueles que o temem (1,48-49).

Esses versículos são os mais belos e expressivos do canto de Maria, pois demonstram seu reconhecimento pessoal. Maria tem razão para glorificar a Deus e se alegrar porque Ele mesmo olhou para ela. Reconhecendo a sua humildade, Deus a engrandeceu com o seu olhar. O olhar divino sobre Maria recorda o olhar de Iahweh para os hebreus no Egito, casa da escravidão, e os liberta (Ex 3-3).

Maria sabe que o olhar de Deus está sobre ela e isso lhe basta. Ele tem visitado sua pequenez e a acompanha em seu caminhar, fortalece-a. A partir de agora não estará na solidão, pois Deus se faz presente em sua vida de maneira perpétua.

Em seu agradecimento, Maria continua afirmando que o poderoso fez grandes coisas na sua vida. Essas palavras ratificam e completam o valor ativo e criador do olhar de Deus. Maria canta o louvor à libertação que Deus realizou em sua vida. Por isso se apresenta como Bem-aventurada (1.48), como a primeira dos amados e por Deus redimido.

Maria, a profetiza do Reino (Lc 1,51-55)

Na primeira parte do Magnificat vimos como o olhar de Deus libertou Maria e realizou nela sua vontade. Agora vejamos como Maria responde ao olhar divino. Ao ser libertada pelo Senhor, Maria se descobre libertadora e por isso canta. Ela não vive na opressão, não suporta a exclusão, e eleva sua voz com o grito de libertação, abrindo sua experiência para todo o universo.

Agiu com a força de seu braço,

dispersou os homens de coração orgulhoso,

depôs poderosos de seus tronos

e o oprimido exaltou.

Cumulou de bens os famintos

e despediu ricos de mãos vazias (Lc 1,51-53).

Deus olhou para Maria. Agora ela volta os seus olhos para o mundo e proclama que, através dos olhos dela, Deus enxerga o mundo e realiza a obra da libertação. Isso significa que o olhar de Deus dirigido a Maria não é privilégio pessoal dela. Ao contrário, Deus enxerga a humanidade toda que sofre. Essa é a grande obra de Maria: ser canal de graças e de libertação. Por meio de Maria, Deus olha os pequenos, os famintos e os oprimidos da terra e faz chegar a todos os seres humanos a palavra de Deus encarnada no seio virginal da serva do Senhor.

Aos famintos, Deus quer saciar, cumulá-los de bens, suscitar para eles um mundo de abundância e alegria partilhado de maneira que os bens da terra sejam símbolo da bênção de Deus.

Aos oprimidos, Deus os eleva, dando-lhes liberdade para se expressarem, rompendo assim as cadeias que os aprisionam. Ele deseja que a vida seja libertada e que todos procurem ser plenamente livres. Ao elevar os oprimidos Deus possibilita-lhes o encontro com o amor divino.

Diante dos soberbos estão os humilhados, ou seja, aqueles que não podem se expressar, pois não têm autoridade ou poder para pensar, para falar, para mostrar-se como humano. Pois bem, ao dispersar os soberbos, Deus cria espaço de vida para os humilhados.

Esses são os três níveis que, de acordo com a profecia de Maria, Deus suscita uma transformação social. Ao perceber que Deus olhava para ela, Maria sentiu que Deus queria o mesmo para todos os pequenos da terra. Por isso suas palavras proféticas expressam a nova criação de Deus que Ele desejou para os seres humanos. Esta profecia de Maria marca o nascimento de um tempo novo de liberdade e justiça, de Mercê redentora e de justiça fraternal para o mundo. No canto do Magnificat, Maria, a mercê de Deus, revela o olhar mercedário de Deus para os cativos.

P. Fr. Werner Silva, O. de M.

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